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Treino e hábitos

Dor muscular no dia seguinte é sinal de treino bom?

A dor de 1 a 3 dias depois do treino não mede o ganho de músculo. Veja o que os estudos dizem, por que ela diminui com as semanas, o que alivia e quando a dor é sinal de alerta.

Por Estiven Uryu
Atleta sentado na beirada de um sofá, de manhã, esfregando a coxa com uma leve expressão de dor, com um rolo de espuma no chão e uma xícara na mesa.
Imagem ilustrativa gerada com IA no Canva para o Estiven4Fit. Não retrata o autor.
O que você vai encontrar aqui
  1. O que é essa dor do dia seguinte?
  2. Se não doeu, o treino não funcionou?
  3. Por que a dor diminui depois de algumas semanas?
  4. Posso treinar com o músculo dolorido?
  5. O que alivia a dor muscular?
  6. Quando a dor muscular é sinal de alerta?
  7. Como lidar com a dor muscular no dia a dia
  8. Perguntas frequentes

Não. A dor muscular de um a três dias depois do treino mostra que o músculo fez algo a que não estava acostumado, não que ele vai crescer mais. Ela aparece com exercício novo, com volta depois de uma pausa e com a fase de descida do movimento. E tende a diminuir com as semanas mesmo quando o treino continua funcionando. Nos estudos, o dano muscular foi maior justamente nas primeiras sessões, quando o ganho de músculo ainda não tinha começado (Damas, 2016).

A dúvida aparece entre as perguntas comuns do guia do aluno do Team Garcia, de João Pedro Garcia, ponto de partida deste artigo.

O que é essa dor do dia seguinte?

É a dor muscular de início tardio, chamada em inglês de DOMS. Ela vem de pequenas lesões nas fibras do músculo depois de esforço novo ou de contrações excêntricas, que são as de descida do peso. Os sintomas aparecem com atraso e costumam chegar ao máximo entre 48 e 72 horas depois do exercício (Hotfiel, 2018).

Além da dor ao tocar ou alongar, ela traz rigidez, inchaço leve e menos força por alguns dias. O ácido lático, culpado popular, não explica a dor do dia seguinte. A revisão de Cheung e colegas (2003) lista seis hipóteses, e a explicação mais aceita hoje combina dano nas fibras e inflamação local.

Se não doeu, o treino não funcionou?

Funcionou, se foi bem feito. O estudo de Damas e colegas (2016), feito na USP com 10 homens jovens ao longo de 10 semanas, mediu o dano muscular e a produção de proteína do músculo em três momentos:

MomentoDano muscularO que aconteceu com o crescimento
1ª semanaO maior do estudoA produção de proteína subiu muito, mas não teve relação com o ganho de músculo: estava indo para reparar o dano
3ª semanaMenorA produção de proteína passou a acompanhar o ganho de músculo
10ª semanaMínimoAumento das fibras musculares medido na biópsia

Em outras palavras: quanto mais dano, mais o corpo gasta em conserto. O crescimento ganhou força quando o dano já tinha caído. Numa revisão posterior, o mesmo grupo concluiu que o dano muscular não é o processo que causa nem potencializa a hipertrofia, e que treinos que causam pouco dano trazem ganhos parecidos de músculo e força (Damas, 2018).

O que leva ao ganho de músculo é treinar com esforço perto do limite, com volume suficiente e progressão ao longo das semanas. Os artigos sobre treino perto da falha e séries por semana mostram o que os estudos encontraram.

Por que a dor diminui depois de algumas semanas?

Porque o músculo se adapta. Depois de uma sessão que causou dano, a mesma sessão repetida causa menos dano e menos dor. É o chamado efeito da sessão repetida (Hyldahl, 2017). Segundo a revisão, várias adaptações contribuem: no sistema nervoso, na rigidez do músculo e no tecido que envolve as fibras.

Isso explica uma situação comum:

Por isso a dor não serve de régua. O que serve é o registro de cargas e repetições, como mostra o artigo sobre como registrar o treino, e os sinais descritos em como saber se o treino está funcionando.

Posso treinar com o músculo dolorido?

Dor leve não costuma impedir o treino. Na revisão de Cheung e colegas (2003), o próprio exercício foi o meio mais eficaz de aliviar a dor, embora o alívio passe rápido. Os autores sugerem duas saídas quando a dor é forte: reduzir a intensidade e a duração por um ou dois dias, ou treinar partes do corpo menos afetadas.

Tome cuidado com uma coisa. Com dor forte, a força e a amplitude caem, e o corpo muda o jeito de fazer o movimento para compensar, o que pode sobrecarregar outras estruturas (Cheung, 2003). Se a dor está mudando a sua execução, é dia de aliviar aquele grupo muscular.

O que alivia a dor muscular?

Na meta-análise de Dupuy e colegas (2018), com 99 estudos, algumas técnicas reduziram a dor e outras não:

TécnicaEfeito na dor muscular tardia
MassagemA mais eficaz do estudo, para dor e para sensação de cansaço
Recuperação ativa, roupas de compressão, imersão em água, água quente e fria alternadas, crioterapiaRedução de pequena a grande
Alongamento e eletroestimulação, entre outrasSem efeito na dor

Nenhuma dessas técnicas é obrigatória. A dor do dia seguinte passa sozinha em alguns dias. Remédios para dor e anti-inflamatórios devem ser usados só com orientação médica.

Quando a dor muscular é sinal de alerta?

Quando vem com urina escura, fraqueza grande, inchaço forte ou dor desproporcional ao treino. Esses são sinais de rabdomiólise, uma lesão muscular grave que pode atingir os rins e exige atendimento médico. Numa revisão de 97 casos após aulas de bike indoor, a maioria era de mulheres saudáveis na primeira aula. Os sintomas mais comuns foram dor muscular, urina escura e fraqueza nas coxas, e a ida ao médico aconteceu, em média, cerca de três dias depois do exercício (Masuda, 2023).

Dor muscular comumProcure atendimento médico
Dor ao tocar ou alongar o músculo treinadoUrina escura
Pico em 2 ou 3 dias e melhora depoisDor que piora em vez de melhorar
Força um pouco menor por alguns diasFraqueza grande, dificuldade para levantar ou andar
Rigidez que melhora com movimento leveInchaço forte ou músculo muito endurecido
No músculo que foi treinadoDor aguda numa articulação ou dor que começou com um estalo durante o exercício

Dor numa articulação, como joelho, ombro ou lombar, não é dor muscular tardia. Ela pede avaliação, não mais treino.

Como lidar com a dor muscular no dia a dia

  1. Comece aos poucos

    Exercício novo ou volta depois de pausa: menos séries nas primeiras sessões. Cheung e colegas sugerem introduzir o que é novo ao longo de 1 a 2 semanas.

  2. Não use a dor como meta

    Acrescentar séries só para "sentir" o treino aumenta o dano sem aumentar o ganho.

  3. Acompanhe pelo registro

    Carga e repetições subindo ao longo das semanas mostram progresso, com ou sem dor.

  4. Com dor forte, alivie

    Treine outro grupo muscular ou faça o mesmo com menos carga e menos séries por um ou dois dias.

  5. Conheça os sinais de alerta

    Urina escura, fraqueza grande ou dor que piora: procure atendimento médico.

Perguntas frequentes

Por que a perna dói mais que o peito no dia seguinte? Depende mais de quanto o exercício é novo para você e de quanta descida controlada ele tem do que do grupo muscular. Quem treina pernas com menos frequência, ou faz exercícios com descida longa, tende a sentir mais.

Alongar antes ou depois do treino evita a dor? Os estudos não mostram isso. Na revisão de Cheung e colegas (2003) e na meta-análise de Dupuy e colegas (2018), o alongamento não reduziu a dor muscular tardia.

Se eu nunca sinto dor, preciso mudar o treino? Não por causa da dor. Mude se o registro mostrar cargas e repetições paradas por várias semanas, como explica o artigo sobre como saber se o treino está funcionando.

Quanto tempo a dor dura? Costuma chegar ao máximo entre 48 e 72 horas e melhorar depois (Hotfiel, 2018). Se piorar depois desse prazo ou vier com os sinais de alerta da tabela, procure atendimento médico.

Suplemento ou alimentação resolvem a dor muscular? Este artigo não trata de suplementos nem de dieta. Para dúvidas sobre isso, converse com um nutricionista ou médico.

Conteúdo informativo, escrito para o público em geral. Ele não avalia o seu caso, não substitui consulta e não deve ser usado para interromper ou iniciar tratamento por conta própria.

Fontes consultadas

  1. Advances in Delayed-Onset Muscle Soreness (DOMS): Part I: Pathogenesis and Diagnostics (Hotfiel et al., 2018) — Sportverletzung Sportschaden
  2. Delayed onset muscle soreness: treatment strategies and performance factors (Cheung, Hume e Maxwell, 2003) — Sports Medicine
  3. Resistance training-induced changes in integrated myofibrillar protein synthesis are related to hypertrophy only after attenuation of muscle damage (Damas et al., 2016) — The Journal of Physiology
  4. The development of skeletal muscle hypertrophy through resistance training: the role of muscle damage and muscle protein synthesis (Damas, Libardi e Ugrinowitsch, 2018) — European Journal of Applied Physiology
  5. Mechanisms and Mediators of the Skeletal Muscle Repeated Bout Effect (Hyldahl, Chen e Nosaka, 2017) — Exercise and Sport Sciences Reviews
  6. An Evidence-Based Approach for Choosing Post-exercise Recovery Techniques to Reduce Markers of Muscle Damage, Soreness, Fatigue, and Inflammation: A Systematic Review With Meta-Analysis (Dupuy et al., 2018) — Frontiers in Physiology
  7. Clinical characteristics and outcomes of exertional rhabdomyolysis after indoor spinning: a systematic review (Masuda et al., 2023) — The Physician and Sportsmedicine
Estiven Uryu sorrindo de regata branca e fones de ouvido na academia, fazendo o sinal de paz.

Sobre quem escreveu

Estiven Uryu

Formado em Engenharia da Computação e estudante de Educação Física. Atleta de fisiculturismo na categoria Men's Physique Master, trabalhou com venda de suplementos e representação comercial antes de atuar com tecnologia. Escreve sobre treino, alimentação e suplementos a partir da própria experiência e dos estudos. Não é nutricionista nem médico: os textos são educativos e não substituem avaliação profissional individual.

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