Amplitude completa ou parcial? O que os estudos mostram
Meia repetição dá menos resultado? Veja o que 7 estudos encontraram sobre amplitude completa, parcial em cima e parcial na parte alongada do movimento, com tabela, gráfico e exemplos.

O que você vai encontrar aqui
Os estudos favorecem treinar passando pela parte do movimento em que o músculo está alongado. A amplitude completa faz isso e, numa meta-análise de 16 estudos, deu mais força e mais hipertrofia nas pernas do que a parcial (Pallarés, 2021). A parcial feita só no trecho alongado, como descer bem e não subir até o fim, teve resultado parecido com a completa nos estudos mais recentes. A que fica para trás é a meia repetição feita na parte de cima, onde o músculo está encurtado.
A amplitude é um dos pilares do guia do aluno do Team Garcia, de João Pedro Garcia, que inspirou esta série de artigos.
O que é “parcial na parte alongada”?
É fazer só o trecho do movimento em que o músculo está mais esticado. Todo exercício tem um ponto em que o músculo trabalhado fica alongado e outro em que ele fica encurtado:
| Exercício | Músculo mais alongado | Músculo mais encurtado |
|---|---|---|
| Agachamento | Embaixo, quadril e joelhos dobrados (glúteo e adutores) | Em pé |
| Rosca direta | Braço estendido (bíceps) | Peso perto do ombro |
| Panturrilha em pé | Calcanhar abaixo da linha do degrau | Na ponta dos pés |
| Cadeira extensora | Joelho dobrado (quadríceps) | Perna esticada |
| Supino | Barra ou halteres perto do peito (peitoral) | Braços estendidos |
Quem faz “meia repetição” quase sempre corta a parte alongada: para de descer cedo no agachamento, não estende o braço na rosca, não deixa o calcanhar descer na panturrilha. É justamente o trecho que os estudos apontam como o mais importante.
O que os estudos mostram?
| Estudo | Quem e o quê | O que encontrou |
|---|---|---|
| Pallarés et al. (2021) | Meta-análise de 16 estudos | Completa deu mais força (ES 0,56) e mais hipertrofia nas pernas (ES 0,88) que a parcial |
| Kubo et al. (2019) | 17 homens, agachamento completo × meio agachamento, 10 semanas | Glúteo máximo: +6,7% no completo e +2,2% no meio. Adutores: +6,2% e +2,7%. Quadríceps: parecido (+4,9% e +4,6%) |
| Maeo et al. (2021) | 20 adultos, mesa flexora sentada × deitada, 12 semanas | Posterior de coxa cresceu +14% na sentada, em que o músculo fica mais alongado, e +9% na deitada |
| Pedrosa et al. (2022) | 45 mulheres iniciantes, cadeira extensora com amplitudes diferentes | A parcial com o joelho mais dobrado cresceu mais em algumas regiões da coxa que a completa e a parcial com a perna esticada |
| Kassiano et al. (2023) | 42 mulheres jovens, panturrilha, 8 semanas | Gastrocnêmio medial: +15,2% na parcial alongada, +6,7% na completa e +3,4% na parcial encurtada |
| Wolf et al. (2025) | 30 pessoas treinadas, membros superiores, 8 semanas | Parcial alongada e completa deram ganhos parecidos de espessura muscular |
| Gschneidner et al. (2025) | 297 pessoas em 15 locais, braço e coxa, 12 semanas | Diferença pequena entre parcial alongada e completa; os autores a consideram praticamente equivalente |
ES é o tamanho do efeito: quanto maior, maior a vantagem do grupo. Acima de 0,8 costuma ser considerado grande.
O estudo da panturrilha mostra bem a diferença entre os três jeitos de fazer o mesmo exercício:
Aumento da espessura do gastrocnêmio medial em 8 semanas de panturrilha. Fonte: Kassiano et al., 2023, com 42 mulheres jovens.
Um estudo só, com panturrilha e mulheres jovens, não permite dizer que a parcial alongada é melhor que a completa em todo exercício. Os estudos maiores e com pessoas treinadas, como o de Gschneidner, com quase 300 participantes, encontraram as duas praticamente empatadas. O ponto em comum de todos é outro: o trecho alongado precisa estar no movimento.
Meio agachamento dá menos resultado?
Para glúteo e adutores, deu. No estudo de Kubo e colegas (2019), o agachamento completo fez o glúteo máximo crescer cerca de três vezes mais que o meio agachamento. Para o quadríceps, os dois grupos cresceram parecido.
A força também seguiu a amplitude treinada. O grupo do agachamento completo melhorou 31,8% no agachamento completo, contra 11,3% do grupo do meio agachamento. No meio agachamento, os dois grupos melhoraram parecido. Em outras palavras, quem treina só meia amplitude fica mais forte só naquele trecho.
Por isso vale anotar a amplitude junto com a carga quando ela mudar. O artigo sobre como registrar o treino mostra o que mais entra no registro.
E se eu não consigo fazer o movimento completo?
Use a maior amplitude que você controla sem dor e sem perder a posição. Falta de mobilidade, uma lesão antiga ou desconforto numa articulação são motivos para conversar com um profissional de Educação Física ou com um fisioterapeuta, que podem trocar o exercício ou ajustar a posição. Dor aguda durante o movimento é sinal para parar.
A amplitude também não deve ser comprada com carga. Se descer mais exige tirar peso da barra, tire.
Como olhar a amplitude no seu treino
Descubra onde o músculo alonga
Use a tabela do começo: é o ponto em que o peso está mais longe de onde termina a subida.
Confira se você passa por esse ponto
Filme uma série de lado. Muita gente acha que desce tudo e para bem antes.
Ajuste a carga, não a amplitude
Se a repetição completa não sai com o peso atual, reduza o peso até sair.
Mantenha o mesmo padrão toda semana
Mudar a amplitude muda o número de repetições e atrapalha a comparação com as semanas anteriores.
Leve a série perto do limite
Amplitude boa com esforço baixo também rende pouco. Veja como estimar o esforço no artigo sobre RIR e treino perto da falha.
Se você segue um plano montado por um profissional, as parciais podem fazer parte dele por um motivo específico, como reabilitação ou técnica. Nesse caso, siga o plano e tire as dúvidas com quem o montou.
Perguntas frequentes
Então devo fazer só parciais na parte alongada? Os estudos não mostram vantagem clara sobre a amplitude completa, que também passa pelo trecho alongado. Na maioria deles, as duas empataram. A completa ainda tem a vantagem de deixar você forte em todo o movimento.
Meia repetição no fim da série, depois de não aguentar mais, ajuda? Essa é uma pergunta diferente da deste artigo. Aqui os estudos compararam treinos inteiros com uma amplitude ou outra, não repetições extras depois da falha.
A amplitude conta para o número de séries da semana? Conta a série feita com esforço perto do limite, como explica o artigo sobre quantas séries por semana. A amplitude muda o quanto cada série estimula, não se ela entra na conta.
Esses resultados valem para iniciantes e para quem já treina? Há estudos com os dois públicos. Os de Pedrosa e Kassiano foram com mulheres que não treinavam, o de Wolf com pessoas treinadas. O padrão de dar valor ao trecho alongado apareceu nos dois casos.
Como sei se a mudança de amplitude está funcionando? Pelo mesmo jeito de acompanhar qualquer mudança: cargas e repetições ao longo das semanas, fotos e medidas. O artigo sobre como saber se o treino está funcionando explica como.
Conteúdo informativo, escrito para o público em geral. Ele não avalia o seu caso, não substitui consulta e não deve ser usado para interromper ou iniciar tratamento por conta própria.
Fontes consultadas
- Effects of range of motion on resistance training adaptations: A systematic review and meta-analysis (Pallarés et al., 2021) — Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports
- Effects of squat training with different depths on lower limb muscle volumes (Kubo et al., 2019) — European Journal of Applied Physiology
- Greater Hamstrings Muscle Hypertrophy but Similar Damage Protection after Training at Long versus Short Muscle Lengths (Maeo et al., 2021) — Medicine & Science in Sports & Exercise
- Partial range of motion training elicits favorable improvements in muscular adaptations when carried out at long muscle lengths (Pedrosa et al., 2022) — European Journal of Sport Science
- Greater Gastrocnemius Muscle Hypertrophy After Partial Range of Motion Training Performed at Long Muscle Lengths (Kassiano et al., 2023) — Journal of Strength and Conditioning Research
- Lengthened partial repetitions elicit similar muscular adaptations as full range of motion repetitions during resistance training in trained individuals (Wolf et al., 2025) — PeerJ
- The effects of lengthened-partial range of motion resistance training of the limbs on arm and thigh muscle area: A multi-site randomised trial (Gschneidner et al., 2025) — Journal of Sports Sciences

Sobre quem escreveu
Estiven Uryu
Formado em Engenharia da Computação e estudante de Educação Física. Atleta de fisiculturismo na categoria Men's Physique Master, trabalhou com venda de suplementos e representação comercial antes de atuar com tecnologia. Escreve sobre treino, alimentação e suplementos a partir da própria experiência e dos estudos. Não é nutricionista nem médico: os textos são educativos e não substituem avaliação profissional individual.


