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Treino e hábitos

O que é RIR e como saber se você está treinando perto da falha

Chegar perto da falha ajuda a ganhar músculo, mas ir até ela em toda série atrasa a recuperação. Entenda o RIR, quanto as pessoas erram ao estimar e como calibrar.

Por Estiven Uryu
Atleta na última repetição difícil de uma série na cadeira extensora, com um parceiro de treino ao lado, numa academia movimentada.
Imagem ilustrativa gerada com IA no Canva para o Estiven4Fit. Não retrata o autor.
O que você vai encontrar aqui
  1. O que é RIR e como ele se relaciona com a escala de esforço?
  2. Precisa ir até a falha para ganhar músculo?
  3. Qual o custo de treinar até a falha em toda série?
  4. As pessoas acertam quando estimam o RIR?
  5. Como estimar o RIR na prática?
  6. Como calibrar a sua estimativa
  7. Perguntas frequentes

RIR (repetições na reserva) é quantas repetições com boa técnica você ainda conseguiria fazer quando encerrou a série. Os estudos indicam que séries terminadas mais perto da falha geram mais hipertrofia (Robinson 2024), mas que ir até a falha total não mostrou vantagem clara sobre parar pouco antes (Refalo 2023) e deixa a recuperação mais lenta por 24 a 48 horas (Morán-Navarro 2017). Em média, as pessoas erram a estimativa em cerca de uma repetição (Halperin 2022).

O que é RIR e como ele se relaciona com a escala de esforço?

RIR é a contagem do que sobrou no tanque: RIR 0 quer dizer que não sairia mais nenhuma repetição com boa técnica; RIR 2 quer dizer que sairiam mais duas. A escala foi proposta por Zourdos e colegas em 2016 como uma versão da escala de esforço percebido (RPE, na sigla em inglês) específica para musculação, em que RPE 10 equivale a RIR 0, RPE 9 a RIR 1, e assim por diante.

RIRRPEComo costuma ser a última repetição
010Não sairia mais nenhuma com a mesma técnica
19Lenta e difícil; sairia só mais uma
28Visivelmente mais lenta que as primeiras
37Pesada, mas ainda com velocidade
4 ou mais6 ou menosQuase na velocidade da primeira repetição

A coluna da direita é uma descrição prática, não uma regra medida. O que os estudos medem é a relação entre esforço e velocidade, explicada mais abaixo.

Precisa ir até a falha para ganhar músculo?

Não precisa ir até a falha, mas precisa chegar perto. As duas meta-análises mais recentes parecem discordar, mas se completam:

  • Robinson e colegas (2024) reuniram estudos com diferentes distâncias da falha e encontraram mais hipertrofia quanto mais perto da falha as séries terminavam. Para força, a distância da falha fez pouca diferença. Os autores chamam a análise de exploratória, porque o RIR de cada estudo foi estimado a partir das descrições.
  • Refalo e colegas (2023) compararam diretamente treinar até a falha momentânea com parar antes dela, em 15 estudos, e não encontraram vantagem para a falha total. Eles sugerem que a relação não é uma linha reta: chegar perto ajuda, mas o último passo até a falha acrescenta pouco.

Lidos juntos: séries “fofas”, encerradas com muitas repetições sobrando, rendem menos; séries que terminam perto do limite rendem mais; e cruzar a linha da falha em toda série não traz ganho extra comprovado. Para o conceito de volume e por que séries longe da falha contam menos, veja quantas séries por semana para ganhar músculo.

Qual o custo de treinar até a falha em toda série?

O custo principal é recuperação mais lenta. No estudo de Morán-Navarro e colegas (2017), dez homens treinados fizeram supino e agachamento em três protocolos. Um deles foi 3 séries de 10 repetições com uma carga que só permitia 10, ou seja, até a falha. Outro foi 6 séries de 5 com a mesma carga, o mesmo volume total, mas parando na metade do possível.

ProtocoloRepetições por sérieTotalResultado
3 × 10 (carga para 10)Até a falha30Maior queda de salto e de velocidade logo após; recuperação mais lenta até 24 a 48 h
6 × 5 (carga para 10)Metade do possível30Recuperação mais rápida entre 24 e 48 h
3 × 5 (carga para 10)Metade do possível15Recuperação mais rápida entre 24 e 48 h

Na prática, isso pesa mais em quem treina o mesmo músculo ou o mesmo padrão de movimento em dias próximos. O estudo é pequeno e foi feito com homens treinados, então serve para mostrar a direção do efeito, não o tamanho exato para cada pessoa.

As pessoas acertam quando estimam o RIR?

Acertam mais ou menos. A meta-análise de Halperin e colegas (2022), com 12 estudos e 414 participantes, encontrou um erro médio de 0,95 repetição: as pessoas tendiam a prever menos repetições do que de fato conseguiam fazer. A estimativa melhorou quando:

  • era feita mais perto do fim da série;
  • a série tinha até 12 repetições (acima disso, o erro aumentou bastante);
  • era feita nas últimas séries do exercício.

Um dado contraria o senso comum: nessa análise, o tempo de treino dos participantes não mudou a precisão. A revisão de Bastos e colegas (2024), com 31 estudos, chegou a uma conclusão parecida sobre o momento: a estimativa é mais confiável quando feita perto da falha.

Como estimar o RIR na prática?

Use dois sinais: a velocidade das últimas repetições e a comparação com a falha de verdade. Morán-Navarro e colegas (2019) mediram a velocidade da barra em quatro exercícios e viram que a velocidade em que a série é encerrada, deixando 2, 4, 6 ou 8 repetições na reserva, era muito parecida qualquer que fosse a carga, e igual entre iniciantes e treinados. Sem aparelho para medir, o sinal visível é este: quando a repetição fica claramente mais lenta mesmo com força máxima, a falha está próxima.

Como calibrar a sua estimativa

  1. Escolha um exercício seguro para testar a falha

    Máquinas e exercícios de isolamento, como cadeira extensora, rosca na máquina ou crucifixo na máquina, permitem falhar sem a barra ficar presa sobre o corpo. Em supino e agachamento livres, só com segurança, como barras de proteção ou alguém acompanhando.

  2. Estime antes de parar

    Quando achar que faltam 2 ou 3 repetições, diga o número para si mesmo antes de continuar.

  3. Continue até a falha técnica e conte

    Pare na última repetição feita com a mesma técnica, sem roubar movimento. Compare com a sua estimativa.

  4. Anote a diferença

    Se você costuma achar que faltam 2 e saem 4, já sabe a sua tendência. Repita de tempos em tempos para ver se ela mudou.

  5. Observe a velocidade

    Repare em como fica a velocidade nas últimas repetições quando você sabe que está perto. Esse é o sinal que você vai usar nas séries em que não vai até a falha.

Quem está começando, tem lesão, dor articular ou alguma condição de saúde deve fazer esse teste com orientação de profissional de Educação Física. Para quem está começando, o primeiro passo é outro: montar uma rotina sustentável.

Perguntas frequentes

Falha muscular e falha técnica são a mesma coisa? Não. Falha técnica é quando a próxima repetição só sairia mudando a execução, como tirando o quadril do banco ou balançando o corpo. Falha momentânea é quando nenhuma repetição sai, nem roubando. Os estudos variam na definição, e essa variação é um dos motivos de os resultados nem sempre baterem.

Com séries de 15 a 20 repetições, o RIR funciona? Funciona pior. Na meta-análise de Halperin, o erro de estimativa aumentou bastante em séries com mais de 12 repetições até a falha, na direção de achar que sobravam menos repetições do que de fato sobravam. Em séries longas, vale ainda mais comparar a estimativa com a falha de verdade.

Iniciante deve usar RIR? Pode, com uma ressalva: o objetivo inicial é aprender a técnica e manter a frequência. Curiosamente, na análise de Halperin a experiência de treino não mudou a precisão da estimativa, mas o estudo de Morán-Navarro de 2019 mostrou que o sinal de velocidade vale igual para iniciantes e treinados.

RIR 0 em toda série é pior para o resultado? Não há prova de que seja pior para o músculo, mas também não há prova de que seja melhor do que parar pouco antes (Refalo 2023), e a recuperação fica mais lenta (Morán-Navarro 2017). O custo aparece no treino seguinte e no acúmulo de cansaço ao longo da semana.

Aquecimento conta para estimar o RIR? Não. Séries de aquecimento são feitas longe da falha de propósito. O RIR interessa nas séries de trabalho.

Conteúdo informativo, escrito para o público em geral. Ele não avalia o seu caso, não substitui consulta e não deve ser usado para interromper ou iniciar tratamento por conta própria.

Fontes consultadas

  1. Exploring the Dose-Response Relationship Between Estimated Resistance Training Proximity to Failure, Strength Gain, and Muscle Hypertrophy (Robinson et al., 2024) — Sports Medicine
  2. Influence of Resistance Training Proximity-to-Failure on Skeletal Muscle Hypertrophy: A Systematic Review with Meta-analysis (Refalo et al., 2023) — Sports Medicine
  3. Accuracy in Predicting Repetitions to Task Failure in Resistance Exercise: A Scoping Review and Exploratory Meta-analysis (Halperin et al., 2022) — Sports Medicine
  4. Novel Resistance Training-Specific Rating of Perceived Exertion Scale Measuring Repetitions in Reserve (Zourdos et al., 2016) — Journal of Strength and Conditioning Research
  5. Time course of recovery following resistance training leading or not to failure (Morán-Navarro et al., 2017) — European Journal of Applied Physiology
  6. Movement Velocity as a Measure of Level of Effort During Resistance Exercise (Morán-Navarro et al., 2019) — Journal of Strength and Conditioning Research
  7. Feasibility and Usefulness of Repetitions-In-Reserve Scales for Selecting Exercise Intensity: A Scoping Review (Bastos, Machado e Teixeira, 2024) — Perceptual and Motor Skills
Estiven Uryu sorrindo de regata branca e fones de ouvido na academia, fazendo o sinal de paz.

Sobre quem escreveu

Estiven Uryu

Formado em Engenharia da Computação e estudante de Educação Física. Atleta de fisiculturismo na categoria Men's Physique Master, trabalhou com venda de suplementos e representação comercial antes de atuar com tecnologia. Escreve sobre treino, alimentação e suplementos a partir da própria experiência e dos estudos. Não é nutricionista nem médico: os textos são educativos e não substituem avaliação profissional individual.

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