O que é RIR e como saber se você está treinando perto da falha
Chegar perto da falha ajuda a ganhar músculo, mas ir até ela em toda série atrasa a recuperação. Entenda o RIR, quanto as pessoas erram ao estimar e como calibrar.

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RIR (repetições na reserva) é quantas repetições com boa técnica você ainda conseguiria fazer quando encerrou a série. Os estudos indicam que séries terminadas mais perto da falha geram mais hipertrofia (Robinson 2024), mas que ir até a falha total não mostrou vantagem clara sobre parar pouco antes (Refalo 2023) e deixa a recuperação mais lenta por 24 a 48 horas (Morán-Navarro 2017). Em média, as pessoas erram a estimativa em cerca de uma repetição (Halperin 2022).
O que é RIR e como ele se relaciona com a escala de esforço?
RIR é a contagem do que sobrou no tanque: RIR 0 quer dizer que não sairia mais nenhuma repetição com boa técnica; RIR 2 quer dizer que sairiam mais duas. A escala foi proposta por Zourdos e colegas em 2016 como uma versão da escala de esforço percebido (RPE, na sigla em inglês) específica para musculação, em que RPE 10 equivale a RIR 0, RPE 9 a RIR 1, e assim por diante.
| RIR | RPE | Como costuma ser a última repetição |
|---|---|---|
| 0 | 10 | Não sairia mais nenhuma com a mesma técnica |
| 1 | 9 | Lenta e difícil; sairia só mais uma |
| 2 | 8 | Visivelmente mais lenta que as primeiras |
| 3 | 7 | Pesada, mas ainda com velocidade |
| 4 ou mais | 6 ou menos | Quase na velocidade da primeira repetição |
A coluna da direita é uma descrição prática, não uma regra medida. O que os estudos medem é a relação entre esforço e velocidade, explicada mais abaixo.
Precisa ir até a falha para ganhar músculo?
Não precisa ir até a falha, mas precisa chegar perto. As duas meta-análises mais recentes parecem discordar, mas se completam:
- Robinson e colegas (2024) reuniram estudos com diferentes distâncias da falha e encontraram mais hipertrofia quanto mais perto da falha as séries terminavam. Para força, a distância da falha fez pouca diferença. Os autores chamam a análise de exploratória, porque o RIR de cada estudo foi estimado a partir das descrições.
- Refalo e colegas (2023) compararam diretamente treinar até a falha momentânea com parar antes dela, em 15 estudos, e não encontraram vantagem para a falha total. Eles sugerem que a relação não é uma linha reta: chegar perto ajuda, mas o último passo até a falha acrescenta pouco.
Lidos juntos: séries “fofas”, encerradas com muitas repetições sobrando, rendem menos; séries que terminam perto do limite rendem mais; e cruzar a linha da falha em toda série não traz ganho extra comprovado. Para o conceito de volume e por que séries longe da falha contam menos, veja quantas séries por semana para ganhar músculo.
Qual o custo de treinar até a falha em toda série?
O custo principal é recuperação mais lenta. No estudo de Morán-Navarro e colegas (2017), dez homens treinados fizeram supino e agachamento em três protocolos. Um deles foi 3 séries de 10 repetições com uma carga que só permitia 10, ou seja, até a falha. Outro foi 6 séries de 5 com a mesma carga, o mesmo volume total, mas parando na metade do possível.
| Protocolo | Repetições por série | Total | Resultado |
|---|---|---|---|
| 3 × 10 (carga para 10) | Até a falha | 30 | Maior queda de salto e de velocidade logo após; recuperação mais lenta até 24 a 48 h |
| 6 × 5 (carga para 10) | Metade do possível | 30 | Recuperação mais rápida entre 24 e 48 h |
| 3 × 5 (carga para 10) | Metade do possível | 15 | Recuperação mais rápida entre 24 e 48 h |
Na prática, isso pesa mais em quem treina o mesmo músculo ou o mesmo padrão de movimento em dias próximos. O estudo é pequeno e foi feito com homens treinados, então serve para mostrar a direção do efeito, não o tamanho exato para cada pessoa.
As pessoas acertam quando estimam o RIR?
Acertam mais ou menos. A meta-análise de Halperin e colegas (2022), com 12 estudos e 414 participantes, encontrou um erro médio de 0,95 repetição: as pessoas tendiam a prever menos repetições do que de fato conseguiam fazer. A estimativa melhorou quando:
- era feita mais perto do fim da série;
- a série tinha até 12 repetições (acima disso, o erro aumentou bastante);
- era feita nas últimas séries do exercício.
Um dado contraria o senso comum: nessa análise, o tempo de treino dos participantes não mudou a precisão. A revisão de Bastos e colegas (2024), com 31 estudos, chegou a uma conclusão parecida sobre o momento: a estimativa é mais confiável quando feita perto da falha.
Como estimar o RIR na prática?
Use dois sinais: a velocidade das últimas repetições e a comparação com a falha de verdade. Morán-Navarro e colegas (2019) mediram a velocidade da barra em quatro exercícios e viram que a velocidade em que a série é encerrada, deixando 2, 4, 6 ou 8 repetições na reserva, era muito parecida qualquer que fosse a carga, e igual entre iniciantes e treinados. Sem aparelho para medir, o sinal visível é este: quando a repetição fica claramente mais lenta mesmo com força máxima, a falha está próxima.
Como calibrar a sua estimativa
Escolha um exercício seguro para testar a falha
Máquinas e exercícios de isolamento, como cadeira extensora, rosca na máquina ou crucifixo na máquina, permitem falhar sem a barra ficar presa sobre o corpo. Em supino e agachamento livres, só com segurança, como barras de proteção ou alguém acompanhando.
Estime antes de parar
Quando achar que faltam 2 ou 3 repetições, diga o número para si mesmo antes de continuar.
Continue até a falha técnica e conte
Pare na última repetição feita com a mesma técnica, sem roubar movimento. Compare com a sua estimativa.
Anote a diferença
Se você costuma achar que faltam 2 e saem 4, já sabe a sua tendência. Repita de tempos em tempos para ver se ela mudou.
Observe a velocidade
Repare em como fica a velocidade nas últimas repetições quando você sabe que está perto. Esse é o sinal que você vai usar nas séries em que não vai até a falha.
Quem está começando, tem lesão, dor articular ou alguma condição de saúde deve fazer esse teste com orientação de profissional de Educação Física. Para quem está começando, o primeiro passo é outro: montar uma rotina sustentável.
Perguntas frequentes
Falha muscular e falha técnica são a mesma coisa? Não. Falha técnica é quando a próxima repetição só sairia mudando a execução, como tirando o quadril do banco ou balançando o corpo. Falha momentânea é quando nenhuma repetição sai, nem roubando. Os estudos variam na definição, e essa variação é um dos motivos de os resultados nem sempre baterem.
Com séries de 15 a 20 repetições, o RIR funciona? Funciona pior. Na meta-análise de Halperin, o erro de estimativa aumentou bastante em séries com mais de 12 repetições até a falha, na direção de achar que sobravam menos repetições do que de fato sobravam. Em séries longas, vale ainda mais comparar a estimativa com a falha de verdade.
Iniciante deve usar RIR? Pode, com uma ressalva: o objetivo inicial é aprender a técnica e manter a frequência. Curiosamente, na análise de Halperin a experiência de treino não mudou a precisão da estimativa, mas o estudo de Morán-Navarro de 2019 mostrou que o sinal de velocidade vale igual para iniciantes e treinados.
RIR 0 em toda série é pior para o resultado? Não há prova de que seja pior para o músculo, mas também não há prova de que seja melhor do que parar pouco antes (Refalo 2023), e a recuperação fica mais lenta (Morán-Navarro 2017). O custo aparece no treino seguinte e no acúmulo de cansaço ao longo da semana.
Aquecimento conta para estimar o RIR? Não. Séries de aquecimento são feitas longe da falha de propósito. O RIR interessa nas séries de trabalho.
Conteúdo informativo, escrito para o público em geral. Ele não avalia o seu caso, não substitui consulta e não deve ser usado para interromper ou iniciar tratamento por conta própria.
Fontes consultadas
- Exploring the Dose-Response Relationship Between Estimated Resistance Training Proximity to Failure, Strength Gain, and Muscle Hypertrophy (Robinson et al., 2024) — Sports Medicine
- Influence of Resistance Training Proximity-to-Failure on Skeletal Muscle Hypertrophy: A Systematic Review with Meta-analysis (Refalo et al., 2023) — Sports Medicine
- Accuracy in Predicting Repetitions to Task Failure in Resistance Exercise: A Scoping Review and Exploratory Meta-analysis (Halperin et al., 2022) — Sports Medicine
- Novel Resistance Training-Specific Rating of Perceived Exertion Scale Measuring Repetitions in Reserve (Zourdos et al., 2016) — Journal of Strength and Conditioning Research
- Time course of recovery following resistance training leading or not to failure (Morán-Navarro et al., 2017) — European Journal of Applied Physiology
- Movement Velocity as a Measure of Level of Effort During Resistance Exercise (Morán-Navarro et al., 2019) — Journal of Strength and Conditioning Research
- Feasibility and Usefulness of Repetitions-In-Reserve Scales for Selecting Exercise Intensity: A Scoping Review (Bastos, Machado e Teixeira, 2024) — Perceptual and Motor Skills

Sobre quem escreveu
Estiven Uryu
Formado em Engenharia da Computação e estudante de Educação Física. Atleta de fisiculturismo na categoria Men's Physique Master, trabalhou com venda de suplementos e representação comercial antes de atuar com tecnologia. Escreve sobre treino, alimentação e suplementos a partir da própria experiência e dos estudos. Não é nutricionista nem médico: os textos são educativos e não substituem avaliação profissional individual.


